domingo, 20 de setembro de 2015

O FRIO DO INVERNO


A carruagem parou em meio a rua cheia de pessoas apressadas. O sol estava escondido por entre nuvens e o vento frio de inverno teimava em tocar o rosto de Anabela. A jovem desceu as escadas do carro da carruagem e observou as pessoas ao seu redor.

             - Eu aguardarei seu retorno aqui, minha senhora – disse o cocheiro todo solícito.

A jovem Anabela assentiu com um gesto de cabeça, olhou o céu estampado de cinza e caminhou por entre os pedestres apressados. O chão de terra batida da rua da capital francesa empoeirava seu lindo vestido bege de cetim e o vento frio brincava com seus longos cabelos castanhos cacheados. Em uma tentativa frustrada, ela tentava ajeitar os cachos no chapéu que teimava em cair ao chão. E foi assim que ela conheceu sua alma gêmea.

                - Acho que este chapéu pertence a senhorita – disse o desconhecido.

                Anabela olhou agradecida para o jovem homem que lhe estendia o seu chapéu brincalhão.

                - Muito obrigada, senhor! Este chapéu sempre teima em brincar comigo – disse a jovem corada de vergonha.

                - Então, eu acho que tenho de agradecer ao seu chapéu por me dar a oportunidade de apreciar tão linda dama neste dia frio de inverno.

                Anabela nada respondeu, somente sorriu entre lábios, fitou nos olhos do jovem e mais uma vez, abaixou a cabeça envergonhada.

                - Perdão, senhorita! Meu nome é Lúcio.

                - O meu é Anabela – respondeu a moça um tanto ruborizada.

                - Bela como o próprio nome! Será que posso acompanhar tão bela dama nesta manhã fria de inverno?

                Anabela olhou mais uma vez fundo nos olhos do homem em sua frente. Havia um brilho misterioso em seu olhar, parecia que ela já o conhecia há tempos. Por fim, com um sorriso, a jovem consentiu que Lúcio a acompanhasse pelas ruas da capital francesa.

                Lúcio contou-lhe sua vida, em como viera parar em Paris com sua família de descendência espanhola para se formar em Direito. Anabela olhava-o admirada e percebeu como o jovem de olhos negros brilhantes estava empolgado com a nova era que estava chegando à França.

                - A razão encaminhará o homem à sabedoria e o conduzirá à verdade, Anabela – dizia Lúcio – As luzes de um novo tempo estão chegando, minha linda dama.

                - Mas, acredito ser impossível mudar o mundo que vivemos, Lúcio! O rei nunca deixará de ser rei! A rainha nunca deixará de ter teus súditos e a corte nunca deixará seus benefícios! – refletia Anabela.

             - O iluminismo irá mudar isso, minha querida! Esta nova era nos trará liberdade de expressão e igualdade de direitos.

- Por que estais a me dizer tais coisas, Lúcio? Nestes tempos em que vivemos é proibido falar em revolução. Não temes que eu possa te entregar aos guardas do rei?

O jovem intelectual pegou as delicadas mãos da dama que o acompanhava e levando-as aos lábios, revelou:

- Não sei o porquê, minha querida Anabela, mas eu confio em você! Para mim, teu lindo rosto parece ser conhecido de outras gerações.

Os dias se passaram e durante todas as manhãs, Anabela caminhava ao redor do rio Sena com o jovem advogado de nome Lúcio. Ele lhe contava detalhes de obras proibidas como as de Montesquieu, Rousseau, Voltaire e John Locke.

- É preciso arrancar fora os velhos grilhões da ignorância e da autoridade, Anabela – sempre dizia Lúcio para a jovem – É preciso acabar com a desigualdade criada por estas instituições políticas e também pela sociedade.

- Mas, como acabar com tudo isso, Lúcio? Desde a minha tenra infância vejo pessoas morrendo de fome enquanto a Corte Real realiza caros bailes com o dinheiro dos impostos do povo.

- Por isso, é preciso de novos tempos onde a informação possa quebrar as correntes que prende o homem – mais uma vez os olhos negros de Lúcio brilharam – O homem nasce livre, Anabela, mas em todos os lugares ele está acorrentado. Um homem que se julga o senhor dos outros, continua a ser mais escravo do que eles.

Aquelas frases a jovem senhorita nunca mais iria esquecer e foi naquela manhã cinza de fevereiro do ano de 1789 às margens do rio Sena que Anabela recebeu em seus lábios o beijo ardente daquele homem que aspirava por novos tempos.

As águas do velho rio da capital francesa foi testemunha de muitas juras de amor eterno entre o jovem casal e em muitas manhãs, Anabela acompanhava Lúcio com suas anotações em um velho caderninho com folhas amareladas. Mas, o destino parecia não estar a favor dos amantes e, em uma noite, o advogado procurou sua amada e a entregou em prantos suas anotações.

- Anabela, se algo acontecer comigo, prometa-me que estas páginas chegarão até as mãos de pessoas que estarão dispostas a lutar pelo povo.

- Mas, Lúcio, o que está acontecendo? Por que estais tão preocupado? – perguntou angustiada Anabela.

- Minha linda senhorita, não posso dizer-lhe o que me tira o sono, mas prometa-me que fará o que lhe peço! – implorou o homem de olhos brilhantes.

Com um consentimento com a cabeça, Anabela prometeu para Lúcio que iria seguir suas orientações.

- Anabela, eu nunca senti este amor por alguém como eu sinto por você! Pra sempre irei te amar, minha linda donzela! Partirei por um tempo, mas logo voltarei para seus braços!

E com olhos marejados de lágrimas, os jovens amantes se despediram com um longo beijo que para sempre estaria na memória de Anabela. Mas, logo pela manhã, um corpo inerte no rio Sena chamou a atenção de toda Paris. O jovem advogado de nome Lúcio não mais vivia. A notícia oficial dizia que a morte fora suicídio, mas algumas pessoas confidenciavam entre si que o homem dos olhos brilhantes havia sido assassinado pela guarda real.

Ao saber da notícia, Anabela correu para as margens do velho rio que fora testemunha do seu amor e sobre o corpo frio do seu amado, lágrimas jorraram dos seus olhos. E naquela manhã fria do início do mês de março, ela se lembrou da promessa que não poderia ser quebrada.

O mês de maio chegou e em Paris a Revolução se instalou. O povo francês estava muito descontente com o rei Luís XVI e com os gastos da corte real. Os ideais iluministas foram o estopim para que em julho a fortaleza Bastilha fosse tomada pelo próprio povo, se tornando símbolo da Revolução que acabara de estourar em toda a França. Marceneiros, diaristas, escultores, chapeleiros, alfaiates, operários e artesãos formavam a massa revoltosa que invadiu e destruiu a prisão real da capital francesa. Paris estava “intoxicada com liberdade e entusiasmo”.

E em meio a essa revolta, uma jovem de cabelos castanhos cacheados, caminhava apressada por entre a multidão que gritava palavras de ordem pelas ruas de Paris. Ao adentrar em uma velha casa do quarteirão rodeado por vozes que gritavam, Anabela entrega o velho caderninho de folhas amareladas para o homem alto que estava em sua frente.

- Espero que se debruce sobre as palavras escritas a sangue neste velho caderno. Elas com certeza serão fontes de inspiração para que o povo realmente possa ter liberdade, igualdade e fraternidade.

Ao dizer tais frases, a jovem deixa o recinto com o sentimento de promessa cumprida. Apesar do vazio que sentia, seu coração sabia que as palavras contidas naquelas páginas poderiam contribuir com o sonho de Lúcio de uma vida melhor para aquelas pessoas que tiveram a ousadia de enfrentar um poderio que os massacrava dia e noite. E ao abrir o velho caderninho, o homem alto se surpreendeu com as palavras do advogado assassinado:

“Os homens nascem e devem ser livres e iguais em direitos. Todos devem ter a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão como estes direitos. Nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente. A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo e os limites para essa liberdade devem ser determinados pela lei que deve ser a expressão da vontade de todos. Todos os cidadãos devem ser iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares, empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos. Ninguém deveria ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela lei que deve proibir senão as ações nocivas à sociedade e, principalmente, ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene. Todo acusado deveria ser considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deveria ser severamente reprimida pela lei. Ninguém deveria ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei. A livre comunicação das ideias e das opiniões deveria ser um dos mais preciosos direitos do homem. Todo cidadão deveria portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo pelos abusos desta liberdade nos termos previstos em lei. As pessoas da sociedade deveriam ter o direito de pedir contas a todo agente público pela sua administração. A garantia dos direitos do homem necessita de força pública para que possa ser por fim, concretizada”.

          E no dia 26 de agosto de 1789 em Paris na França, o maior sonho do jovem advogado havia se concretizado e suas palavras por fim, foram ouvidas. Após dez dias reunidos na Assembleia Nacional Francesa e em meio a ferro e a fogo que se instalaram no país, os deputados franceses divulgaram a declaração que iria mudar os rumos de todos os homens e mulheres em todo o mundo: a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A MÃE CHORA O FILHO MORTO, A FILHA VÊ O SEU CORPO



                Ele andou uns 100 metros de casa, de repente, ouve um barulho e sente uma dor. Imediatamente, leva uma das mãos até as costas. A mão volta à sua visão cheia de sangue. Era um tiro... Olha para trás para ver o traiçoeiro que atirou, mas seus olhos não conseguem distinguir quem é. Sua visão vai escurecendo e uma sombra apontando uma arma é a última coisa que consegue ver.
                “Acorda, vagabundo” é o grito que o desperta. “Cadê meu dinheiro? Cadê meu pó (cocaína) e meu verdim (maconha)?” a voz continua a berrar. Ele não consegue pensar, só sente o corpo frio e o sangue esguichando. “Vou te matar, carái”, a voz parecia conhecida. Quando consegue abrir os olhos, vê um 38 apontado para a sua cabeça. Os lábios tremem e um sussurro pode-se ouvir “Eu precisei do dinheiro”. Mais um tiro e mais uma dor. Dessa vez foi no joelho. Gritos são ouvidos e a voz continua a berrar “Você torrou meu dinheiro? Você entrou numa sujeira, carái! Eu quero meu dinheiro!”
                O seu rosto estava ensopado de suor e de lágrimas. Pela primeira vez em na vida, ele chorou. E ele já havia feito muita gente chorar... Como um flashback, viu sua vida passar pelos seus olhos. Lembrou-se da namorada da esquina que lhe deu sua primeira e única filha. Lembrou-se de quando ela foi embora com outro, deixando a menina para ele cuidar. Foi a maior “crocodilagem” (traição) que ele enfrentou. Sem pensar duas vezes, ele entrou no mundo das drogas. Virou aviãozinho e drogado. Sua mãe chorou quando o viu noiado pela primeira vez e também chorou quando o viu pela última vez. Ele xingava “Velha safada, quem mandou abrir as pernas pro  filho da puta do meu pai. Tá aqui o resultado!”. Lembrou-se do rostinho da sua filha, de toda infância em que ela não teve um pai. Lembrou-se do dia em que ele fumou umas pedras, “chapô o cocô”(ficou doido) e quase a matou com a faca achando que era um monstro mitológico. Ele ficou “moscando”(vacilando) uma “pá” de vezes, deu “pinoti” (saiu correndo) em muitos “coxinhas” (policiais) porque se metia em muita “treta” (confusão). Ele roubou muitas vezes o salário mínimo de aposentadoria da mãe para ficar chapado. Viu em sua memória o dia em que se escondeu dos capachos do traficante da quebrada e para pagar a dívida das pedras, eles levaram os eletrodomésticos da sua mãe. E ele só queria ter um caminho curto ao dinheiro e ficar chapadão. Precisa alimentar aquela sede de drogas, de êxtase, da ilusão que vivia quando drogado. O barato é legal ao menos na cabeça de um doente. Ele devia ao traficante do gueto e sentia que agora era o fim do caminho...
                “Acorda, vacilão” “Tá me passando a fita forte (roubando), carái”, a voz gritava e mais um som foi ouvido. Mais uma dor foi sentida. Uma dor quente rasgando a pele. Ele podia sentir o pedaço de chumbo endurecido com antimônio e envolvido por uma liga de cobre e zinco entrar nos seus órgãos. Era a bala da arma. Não conseguia gritar, já estava sem força para reagir.
                “Vou mandar você degolado pra puta da tua mãe” foi a última coisa que conseguiu ouvir. E a última coisa que viu foi o 38 apontado para sua cabeça. Um disparo, um segundo, um momento para se arrepender de tudo que não devia ter feito. No caminho sem volta, ele era somente mais um que se perdeu nas ilusões transitórias do vício que vai corroendo a vida, as famílias e os sonhos aos poucos. Já era tarde para se arrepender... Assim, a mãe chora o filho morto, a filha vê o seu corpo, perfurado, degolado, já sem vida, ensanguentado...


terça-feira, 18 de setembro de 2012

ISTO AQUI É UMA GUERRA

Artigo baseado no documentário "O Prisioneiro da grade de ferro"




               O pitbull é um cão que tem uma força de mordida de 200 kg, o que equivale a 4 sacos de cimento. Sua boca abre de uma orelha a outra, permitindo um perfeito encaixe dos dentes, com isso, ele morde e não solta a presa. É um cão muito poderoso e se não for criado por criadores responsáveis que o respeite e o trate bem, se torna extremamente agressivo. E isso pode ser fatal... Imagina um pitbull que cresceu preso a uma corrente, encarcerado dentro de um canil minúsculo e que foi chutado todos os dias de sua vida? Quando ele conseguir sair desse canil, pode ter certeza que ele odiará e morderá a primeira pessoa que atravessar na sua frente. A mesma coisa pode acontecer com pessoas encarceradas. Não estou dizendo que as pessoas são como cães, mas todos tem algo em comum: o ódio e a raiva como defesa.
                Agora imagina um rapaz que cometeu pequenos delitos como furtos e foi condenado a viver do lado de um assassino que já matou umas 40 pessoas. Esse rapaz vai poder aprender muitas coisas com este assassino, inclusive aprender a matar. É interessante ver como um crime puxa o outro.  É interessante ver que quando se entra nesse mundo de crimes, a tendência é sempre ir aprendendo outros crimes mais hediondos. É notório como a nossa sociedade ocidental tem essa mania de tratar a “doença” ao invés de “preveni-la”! Posso chamar de doença o mundo da criminalidade, uma doença que a sociedade é a própria culpada! Essa criminalidade no Brasil tem a sua raiz na falta de criação e aplicação de políticas públicas, fato que produz, além dos crimes mais comuns, a reincidência, pois geralmente aqueles que vivem na criminalidade não têm a oportunidade de emprego, lazer e acesso a escola. Os indivíduos que praticam pequenos delitos e são encarcerados dentro das penitenciárias, muitas vezes, poderão desenvolver um potencial criminoso sem limites, pois geralmente terão um contato maior com o mundo do crime dentro das próprias penitenciárias. Irônico isso, não? Cometer pequenos delitos é como um “vestibular” para entrar na Universidade dos Crimes. Sabe qual o nome dessa Universidade? Chama-se PENINTENCIÁRIA! E elas estão recebendo mais e mais alunos! A população carcerária mais que dobrou nos últimos 11 anos. Foi de 233 mil presos, em 2000, para 496 mil no ano de 2011 - um salto de 113%. Segundo dados do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), do Ministério da Justiça, só entre 2000 e 2005, a quantidade de presos subiu 55%, somando 361 mil. De quê adianta prender e humilhar o indivíduo e não proporcionar a ele políticas que realmente o farão sair da criminalidade? Realmente a música do Eduardo do Facção Central é a mais pura verdade: “Sistema carcerário ainda é curso pra latrocínio”...
                Como toda a regra há exceção, sempre haverá aqueles que realmente abandonam a criminalidade quando saem das penitenciárias. Esse número de pessoas que abandonam os crimes poderia ser maior se houvesse a real criação e efetivação das políticas públicas e uma maior atenção à educação no país. Enquanto não é feito isso, temos de conviver com outros tipos de números maiores: pouco mais de 512 mil pessoas foram assassinadas no Brasil entre 1997 e 2007, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em dez anos, morreram dez vezes mais vítimas de homicídios do que os Estados Unidos tiveram de vidas sacrificadas nos anos de guerra do Vietnam. É isto mesmo: vivemos em uma guerra! De acordo com o Mapa da Violência 2011, que faz uma análise com dados comparativos entre 98 e 2008, entre as causas externas, o homicídio é responsável por 40% das mortes de jovens. No Brasil, o índice de mortes por homicídio entre jovens é o dobro da média geral: 50 brasileiros de 15 a 24 anos são mortos por ano para cada 100 mil habitantes. Espírito Santo e Paraná são os estados com maior índice de mortes violentas de jovens.
                A guerra já começou há tempos e está matando qualquer um: seja rico, pobre, branco ou negro! As casas já estão virando verdadeiras prisões com seus sistemas de segurança e suas grades de aço. Nossas crianças já dão aulas de como manobrar fuzis! Não adianta culpar o traficante, o assaltante ou o menino de rua! Eles são produtos de uma sociedade que é uma fábrica de criminalidade! Quando não se oferece às pessoas que erraram uma oportunidade para realmente mudarem de vida, quem perde mais com isso é a própria sociedade, pois a fábrica de criminalidade continuará a todo vapor. Enquanto nós não cobrarmos uma verdadeira educação e políticas públicas para o nosso povo, o que vamos produzir é isso: um mundo em guerra! Veremos o cenário nacional cada vez pior. E não é brincadeira isso! Se você acha que essa guerra nunca irá lhe afetar, espere até ver a sua filha ou a sua esposa ser estuprada em cima do seu corpo furado por uma 380! 

Documentário "O Prisioneiro da grade de ferro"
Obs: Documentário baseado na penitenciária Carandiru



domingo, 9 de setembro de 2012

BRINCAR DE CASINHA



Artigo baseado no documentário "Meninas" 



          
             Lembro-me da minha infância como se fosse ontem. Brincávamos de fazer “cabaninhas” com pedaços de troncos no meio do mato. Cobríamos o teto das “cabaninhas” com lonas velhas e achávamos que estávamos construindo mansões. Nós adorávamos isso! Usávamos umas bonecas velhas e dizíamos que eram nossas filhas. Fazíamos até jantares especiais regrados com uma plantinha que aqui em Minas chamamos de “Azedinha”. Eu era louca com a Barbie, mas como minha mãe não podia comprar, eu tinha que me contentar em brincar com um pedaço de uma embalagem que tinha a foto da boneca. E não me importava com isso, pois na minha imaginação eu inventava muitos contos de fadas. Lembro-me da casa da minha avó, onde eu e meus primos subíamos no pé de goiaba e no pé de manga. Era o máximo! Parecia que estávamos escalando montanhas! O que eu posso dizer é que, apesar de ter perdido meu pai com 7 anos de idade, a minha infância foi inesquecível! Brinquei de boneca até os 13 anos de idade e não tenho vergonha disso. Hoje as meninas nessa idade brincam sim, mas são com “bonecas” vivas.
           Eu fico extremamente chocada com o que vem acontecendo com as crianças e adolescentes atualmente.  Antigamente, com os meus 14 ou 15 anos, lembro-me que uma paquera durava semanas ou até meses. E isso ficava só na troca de olhares e sorrisos mesmo. Era um jogo de conquista maravilhoso, aquela inocência de chegar da escola e ficar imaginando o rosto e o jeito do garoto.  Hoje em dia, as meninas, nos seus bailes da vida, já vão logo para a cama dos garotões. Esquecem de sonhar como uma garota normal. Esquecem que ainda são “meninas” apesar de terem os corpos desenvolvidos como o de uma mulher. Aí voltam a brincar de bonecas depois de 9 meses. E quando dizem que “amam” o fulano, aí depois de 1 mês já “amam” o outro cicrano? Meu Deus, o que elas entendem de “amor” de uma mulher para com um homem? Elas nem têm experiência em relacionamentos duradouros para saber o que é um verdadeiro “amor” de casal. E nem ouviram falar que relacionamentos não são baseados apenas em amor ou paixão. São também baseados em respeito, confiança, amizade e união.
                A sociedade e a mídia acham normal uma adolescente se portar como se fosse uma mulher. Até incentivam isso! É só ver as novelas que percebemos os exemplos. Então, as meninas e adolescentes querem ser como a “gostosona” da novela das oito. As meninas de 13 já usam esmaltes vermelhos e toda a sensualidade como se fossem uma mulher de 27 anos.  E os meninos e homens adoram isso. “Pegar uma novinha é massa”, dizem. Só que quando a barriga da novinha começa a crescer, entram em desespero ou então, simplesmente fogem da realidade. O que está acontecendo é que os jovens não estão preparados emocionalmente e nem financeiramente para assumir a responsabilidade de criar um bebê. Com isso é gerado outros problemas como abortos, a saída da casa dos pais, o abandono dos estudos e do próprio bebê. De acordo com a ONU, 220 mil adolescentes no mundo engravidam todos os dias. Segundo o IBGE em 1996 no Brasil, 6,9% das garotas de 15 a 17 anos já eram mães. Esse número subiu para 7,6% em 2006. Segundo a pesquisa, as mulheres adultas esperam mais tempo para terem filhos enquanto as adolescentes estão tendo mais filhos.

                A geração de jovens e adolescentes atuais encontra-se com os valores éticos e morais desgastados. Um excesso de liberdade e informações levam esses jovens a banalizarem assuntos como o sexo. E essa liberação sexual juntamente com uma certa falta de limites e responsabilidade favorecem a incidência de gravidez na adolescência. Outro motivo que eleva essa incidência é a desestruturação familiar, onde temos pais sem tempo para dialogar, dando aos adolescentes uma liberdade sem responsabilidade. Os adolescentes passam a não dar satisfações de sua vida diária para os pais e só os procuram quando o problema surge. A desinformação e a fragilidade da educação sexual no Brasil também são questões problemáticas. A maioria das escolas brasileiras só preocupa em ensinar matérias cobradas no vestibular do que discutir com os alunos questões de cunho social. Assim, assuntos como gravidez, sexualidade, drogas, educação ambiental entre outros ficam somente em projetos esporádicos. Os professores e as escolas preferem ensinar uma equação de 2º grau, que o adolescente provavelmente nunca usará na vida, do que conscientizá-lo sobre essas questões de cunho social. O governo se limita às pouquíssimas campanhas que não se preocupam pela conscientização dos adolescentes, apenas pela informação do uso da camisinha. Isso não basta! Diante dessa realidade brasileira o número de pais e mães adolescentes cresce a cada dia.
                Tá certo, estou velha mesmo e careta com os meus 30 anos! Mas, pelo menos eu vivi a minha infância e adolescência podendo parar de brincar de casinha na hora que eu quisesse. Era só guardar a minha boneca e pronto! Ao contrário da realidade dos nossos adolescentes que “casam” e acham que estão brincando de casinha e cuidando de bonecas de verdade. Eles  brincam e podem nunca mais deixar de fazer isso. Por isso eu imploro: Pais, não adianta “socar” filhos neste mundo! Pensem no futuro e na educação que querem dar para os seus filhos! Não deixem suas crianças gerarem outras crianças. Estamos na vida real e não em uma brincadeira de casinha!

Documentário "Meninas"
Obs: Um dos melhores documentários brasileiros que já vi! Vale a pena ver!
 
 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A PALAVRA "VELHO"


Artigo baseado no documentário "Asilo"


                Lá estava ela sentada em sua cadeira de sempre. Olhos voltados para o horizonte, o semblante de quem viveu momentos sofridos na vida. Sentei-me ao seu lado, eu era uma curiosa adolescente na época. Ao ver-me sentar, ela abriu um grande sorriso e segurou em minhas mãos com muita força. Seu nome era Maria, como a mãe de Jesus... Dona Maria contou-me sobre a sua juventude nos anos 30 e como era cortejada pelos moços. Rindo, contou-me em detalhes como seu marido esquecera as alianças no dia do casamento. Seus olhos brilhavam e eu parecia estar diante de um filme lindo. Foi quando suas mãos apertaram mais as minhas. Seu rosto endureceu e fitou-me nos olhos. O brilho no olhar sumira e o que vi foram lágrimas rolarem. Dona Maria então contou-me como seu único filho a mandara para aquele asilo. Foi logo depois que seu marido morrera... O filho se casara e não podia cuidar dela, que estava presa em uma cadeira de rodas e não tinha nenhuma das pernas. Isso aconteceu devido a um acidente quando ela buscava lenha para fazer biscoitos para vender na feira e assim ajudar no orçamento da família.  Havia 10 anos que ela não via o filho. Com aquelas lágrimas nos olhos, Dona Maria dizia que o seu sonho era morrer, pois assim, sua alma poderia rever o filho no seu velório. Tempos depois, voltei ao asilo e tive a notícia que Dona Maria havia morrido. Alguns diziam que ela havia morrido de tristeza. Eu acho que ela conseguiu o que tanto sonhara...
                A história de Dona Maria se repete todos os dias em nosso país. Abandono é uma palavra dura. E é ainda mais dura na prática...  Vemos asilos cheios de idosos abandonados pelas famílias como se eles fossem algo descartável. E isto é apenas uma parcela dos casos de desrespeito com idosos que acontece no Brasil. Respeito é a grande palavra! E respeito era o que as tribos indígenas tinham pelos seus idosos. Os índios mais velhos, sejam homens ou mulheres, adquiriam grande respeito por parte de todos os outros índios. A experiência conseguida por muitos anos de vida os transformava em símbolos de tradições da tribo, porque eles tinham uma experiência muito grande para passar para os mais novos. Infelizmente não é o que acontece com as pessoas que herdaram a terra que eles viveram. O Brasil possui cerca de 19 milhões de pessoas com mais de 60 anos. O que representa mais de 10% da população brasileira, conforme dados do IBGE em pesquisas realizadas em 2009. Também segundo o IBGE esse número de idosos chegará a cerca de 32 milhões de pessoas no ano de 2025 e fará do Brasil o sexto em número de idosos no mundo. Mais de 80% da população com mais de 60 anos ganham pelo menos 1 salário mínimo, sendo parte proveniente de pensões e aposentadorias.  Apesar de estarem aposentados, muitos idosos continuam no mercado de trabalho.  Eles são responsáveis pelo sustento de 25% das famílias brasileiras. Nos casos de violência contra idosos no país, os principais agressores são os familiares, vizinhos e cuidadores.
                O Estatuto do Idoso diz que é obrigação da família, da comunidade, da sociedade, do poder público assegurar ao idoso com absoluta “prioridade” e efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade e blá, blá, blá... Fico indignada como no Brasil tudo só fica no papel mesmo! Onde neste país nossos idosos têm o que diz o Estatuto do Idoso? É só ver como eles são tratados em relação à saúde pública! Muitos morrem na fila de atendimento dos hospitais públicos. É uma vergonha decretar um Estatuto e saber que ele “nunca” será cumprido! É uma vergonha pertencer a uma sociedade que dá às costas para os seus idosos! É uma vergonha fazer parte de um mundinho de pessoas burras o bastante para não saber que, um dia, os idosos serão elas!
                No Brasil, a palavra “velho” significa gente cansada, gente que viveu demais, gente que tem a face cheia de sofrimento e que está esperando a morte. Idosos, nesta sociedade e neste sistema são pessoas que precisam ser jogadas foras porque não têm mais utilidade para os jovens. Só que esses jovens deverão se lembrar de que, em um futuro não muito distante, serão jogados fora também por essa mesma sociedade e por este mesmo sistema que eles tanto veneram!

Documentário Asilo Parte 1:
Obs: O Asilo mostrado no documentário é muito superior a muitos que existem no Brasil. Neste asilo os idosos são tratados com respeito, porém todo o respeito do mundo não substitui o apoio e carinho da família.



Documentário Asilo Parte 2:




quinta-feira, 28 de junho de 2012

O DEUS DO MUNDO


Artigo baseado nos documentários "A Servidão Moderna" de Jeans François Brient e "Capitalismo: uma história de amor" de Michael Moore


                Bem vindos à igreja chamada “mundo”! Vou apresentar-lhes o deus dessa igreja: Dinheiro! Sim, é absurdo pensar assim! Mas é a mais pura verdade. Já era o que pregava Jesus Cristo, Buda, Dalai Lama ou Gandhi! Já era Jeová, já era Alá! O nome do deus desse “mundo” se chama DINHEIRO!  Pense comigo só por um instante nessa analogia:
- Na antiguidade, as pessoas, para agradar ao seu deus, travavam guerras e massacravam populações inteiras. Isto acontece com o Dinheiro hoje, pois muitas pessoas estão travando guerras e matando em nome dele.
- Era atribuída a um deus a sobrevivência das antigas civilizações. Hoje é atribuída ao Dinheiro a sobrevivência das pessoas. Sem Dinheiro não se vive!
- Antigamente, em nome de deus, cometiam grandes atrocidades contra qualquer um, seja mulher ou criança. Assim, acontece hoje, pois pessoas indefesas são mortas em nome do Dinheiro.  
- As pessoas das “antigas civilizações” faziam tudo cegamente, obedeciam às ordens dos sacerdotes e religiosos que eram escolhidos por seus supostos deuses. Atualmente as pessoas estão obsecadas pelo Dinheiro, fazem tudo o que os bancos, as empresas e o que os governos querem.
A história sempre se repete, o que muda são os nomes dos “deuses” da humanidade! E o maior mandamento “Amai-vos uns aos outros como a ti mesmo”? Acho que a humanidade já se esqueceu dele... Hoje o mandamento oficial é outro: “Ame o Dinheiro, pois sem ele você não é ninguém”. Faça qualquer coisa por ele! Mate crianças, escravize trabalhadores, tire famílias de suas casas em nome da propriedade privada, venda drogas, venda o seu corpo, venda a sua alma para ele! As pessoas se tornaram tão dependentes do Dinheiro e do seu materialismo desenfreado, que ele tornou-se um deus que todos querem por perto. Assim como outras civilizações faziam sacrifícios humanos para os seus deuses, essa mistura de sistemas chamada de “capitalismo” faz milhões de sacrifícios humanos todos os dias por causa desse deus chamado “Dinheiro”. Mas, velhas profecias dizem que todo “deus” pune seu povo um dia. Talvez seja isso que esteja acontecendo no mundo que tem o Dinheiro como seu deus.
“Homem primata... capitalismo selvagem” dizia uma velha música dos anos 80. Livre empresa, intenção de lucros, competição: este é o capitalismo? Esse sistema, no qual vivemos inseridos, não é o capitalismo tão aclamado das “teorias”. Vivemos em uma mistura de sistemas que tem por objetivo gerar escravos ou como Wall Street mencionaria: gerar “livestock”, ou seja, “gados”! E gados têm que produzir carne e leite! É o que gera lucro para a classe dominante. Essa mistura de sistemas chamada de “capitalismo” é selvagem como o lobo que devora um cordeiro. É um estatismo com capitalismo que distribui uma síndrome de Estocolmo para os seus “escravos” chamados de classe proletária. Essa síndrome deixam os “escravos” apaixonados por seus sequestradores. Os EUA que o digam... Aproveitaram tanto da desgraça dos outros que agora estão pagando o pato. Estão sendo jogados para fora das suas casas pelo “governo” que deveria protegê-los. E muitos americanos continuam “amando” o governo e os bancos. E não é somente nos EUA que isso acontece: a Europa também está em uma grande crise. Resumindo: a população mundial vive uma “plutonomia”...
                Plutonomia é quando uma sociedade inteira é controlada para o benefício de apenas algumas pessoas, isto é, a burguesia. Podemos dizer que a elite burguesa com suas empresas e ações no Wall Street, o mais importante centro comercial e financeiro do mundo, é quem controla os 98% da população mundial. Wall Street é o berço dessa mistura de capitalismo selvagem. Nesse liquidificador de sistema, os que trabalham não lucram e os que lucram não trabalham. Só que esse modo de controlar a economia mundial pode estar com seus dias contados. Karl Max diz no Manifesto Comunista que “para oprimir uma classe é preciso poder garantir-lhe condições tais que lhe permitam pelo menos uma existência de escravo.” Condição de escravo... Pensemos neste termo...
                Essa mistura capitalista está ruindo tanto que não está dando nem condições de “escravos” à classe trabalhadora. É só ver as notícias nos jornais: criminalidade aumentando, desempregos, fome em todo o mundo, recessão econômica, guerras... Quem iria imaginar, décadas atrás, que a Grécia viveria uma crise econômica? Estamos em um mundo que é como uma bomba relógio, pois, pode explodir a qualquer momento. E existe muita gente que está lucrando com isso. A burguesia aprendeu que um pouco de medo funciona: gritam aos quatro ventos que o mundo está em recessão econômica. Então os administradores de bancos faturam bilhões com a expansão do medo. Veja o caso do dinheiro do resgate que o congresso americano deu para Wall Street e que foi usado para comprar outras empresas. Wall Street alegou que se não fosse emprestado o dinheiro a economia mundial iria sofrer.

                O deus do mundo está gordo de tanto se empanturrar de oferendas em um ritual macabro! Os sacerdotes são os bancos, os devotos são os burgueses, a igreja é o mundo e as oferendas são milhões de trabalhadores que são hipnotizados diariamente pelo olhar maquiavélico e sedutor desse deus chamado Dinheiro. “Suprimi a exploração do homem pelo homem e tereis suprimido a exploração de uma nação por outra” diz um velho ditado. Será que conseguiremos algum dia fugir desse ritual de exploração e descobrir que o verdadeiro Deus dissipa dos homens a ignorância e a ilusão? Será que vamos descobrir algum dia que o verdadeiro Deus nos faz livres e não escravos?

Algumas frases:
 
 “Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.” – Dalai Lama

“Mais vale o pouco que o justo tem, do que as riquezas de muitos ímpios.” - Salmos 37:16

“Para criar inimigos não é necessário declarar guerra, basta dizer o que pensa.” – Martin Luther King

Documentário "A Servidão Moderna" de Jeans François Brient


 O Youtube bloqueou o Documentário "Capitalismo: uma história de amor" de Michael Moore. Então, estou disponibilizando o link para baixar este documentário. Vale a pena ver!!!